Artigos e publicações, Todas as notícias

Hong Kong, 1992.


Marcado: , , .

Texto publicado no livro: CHINA, PASSADO E PRESENTE, da Prof. Rosana Pinheiro Machado.

Fui à China pela primeira vez no distante ano de 1992. Hong Kong era uma possessão inglesa, guardava a nobreza e pompa britânicas. A China era um universo distante de nossa realidade brasileira, e embora se soubesse que ela estava lá, grandiosa e inerte, o afastamento mental era igual à distância que separa a Terra de Marte. Naquela época, eu tinha uma empresa de agenciamento internacional, que desde 1988 atuava no ramo têxtil. Minha companhia, em sociedade com um agente em Montevidéu, um em Buenos Aires e outro em Nova York, chamava-se Sndes Consulting, e a reunião de nossos escritórios formava a Buena Onda Corporation. Um bonito nome para uma bonita operação.

Nossos mercados compradores eram o Brasil, o Uruguai e a Argentina, e nossos fornecedores estavam no Uruguai, na Itália e Peru. A China e o Oriente de modo geral eram nossa fronteira obrigatória, comprar deles era condição essencial para o crescimento dos negócios. A partir dos contatos de nossos sócios, Arturo Reich, de Buenos Aires e, Michael Chetrit, em Nova York, fiz a primeira incursão para visitar fornecedores e desbravar novas possibilidades de negócios.

Meu amigo Ricardo Walter, que morava em HK desde o início dos anos 90, me assessorou nesta primeira viagem, e me apresentou a algumas pessoas. Na vida, uma pessoa deve se arrepender daquilo que não faz e Ricardo organizou um encontro com Supanee Gazeele, uma surpreendente tailandesa que nos recebeu em um restaurante de andar inteiro, todo reservado para nós, debruçado sobre a baía de Hong Kong. Ao final de um maravilhoso almoço, ela me diz: “I am going to make you rich”. Isso desde que eu deixasse de vender têxteis e me dedicasse à fábrica dela, de armações para óculos. Ah, erro meu….

A verdade é que não posso me queixar do ramo têxtil, pois partindo de Hong Kong, nas viagens subsequentes, desenvolvi uma equipe de fornecedores fantástica para clientes do high e low end da moda e fábricas de confecção no Brasil e Uruguai. Apesar do que se dizia sobre os chineses, o fato é que não se pode generalizar. Meus fornecedores eram homens sérios, alguns refugiados do comunismo que retornaram à sua terra para produzir. Nunca tive problemas em cobrar comissões ou exigir reparos para produtos sem a qualidade devida.

Uma história interessante é revela a importância que os chineses dão a superstições. Certa vez fui visitar uma fábrica de roupas íntimas e malharia básica, instalada em um enorme edifício. Quando cheguei, entrava na garagem um chinês muito bem vestido, dirigindo um Rolls Royce Corniche conversível, marrom claro com estofamento bege. Não é uma imagem que se esquece facilmente. Ao ser recebido pelo dono da fábrica, dez minutos mais tarde, vejo ali, na minha frente, o dono do Rolls. Bem, a conversa divertida girava em torno da paixão comum por automóveis e Mr. Chan me descreveu sua coleção, que incluía um Corvette Stingway e uma Ferrari Daytona, entre outros “brinquedinhos”. Sabendo que em HK paga-se um imposto de U$10 mil anuais para se manter um carro, Mr. Chan tinha “café no bule”.

Estamos conversando em uma sala envidraçada, tipo aquário, com vista para o escritório e toda a atividade enlouquecida de amostras, papéis, telefones, etc. No meio da reunião, um senhor de idade, baixa estatura e silencioso entra no salão principal. De repente, um silêncio absoluto de cem pessoas ecoa pelo ambiente. Sim, o silêncio é muitas vezes ensurdecedor. Mr. Chan, ao avistar aquele que me parecia apenas um velhinho simpático, empalidece e só tem tempo de balbuciar um “Excuse me”, antes de deixar a sala. Ali fiquei, olhando através do aquário, como um peixe excêntrico, o que acontecia no mundo externo.

Todos quietos, cabeças baixas no mais profundo respeito oriental, esperando algo. Mr. Chan se curva e o velhinho começa a esbravejar, caminhando pelo salão, apontando ali e aqui, fazendo negativas com a cabeça. Eu, no aquário, “nadava” quieto, afinal, bem sei que mais vale “uma galinha viva do que um valente morto”, e aquele momento, decididamente, não era apropriado para qualquer valentia ocidental. Sete ou oito minutos depois, o velhinho agradece, sorri, e se retira. Mr. Chan levanta a cabeça, suspira e segue as negociações.

Decidi não perguntar sobre o ocorrido. Minha avó germânica dizia que “as palavras são de prata, mas o silêncio é de ouro”. Recuperada a cor, Mr. Chan me explica que aquele simpático velhinho era um sumo sacerdote do feng shui, a milenar arte chinesa que reúne o conhecimento das forças para conservar as influências positivas que supostamente estariam presentes em um espaço, e redirecionar as negativas, de modo a beneficiar seus usuários. Ele viera verificar a reforma do salão e, pelo jeito, não havia gostado nada do que fora feito. Com meus botões, pensei se não seria mais eficiente chamar o velhinho junto com o arquiteto, antes de executarem a obra. Mas eu, peixinho excêntrico, vi que não era hora nem local para este tipo de gracinha ocidental.

Ensinamento desta experiência: o mais importante em uma relação com a China é abandonar nossa visão ocidental das coisas. Tentar compreender as tradições e os maneirismos chineses ajuda muito nos negócios. Eles, como nós, precisam estabelecer laços de confiança antes de fechar contratos.

Por fim, pude estabelecer uma relação muito profunda. Aprendi que chineses, italianos e judeus são muito parecidos. São as civilizações mais antigas da terra, têm quase quatro mil anos. As ligações se baseiam na família, não necessariamente parentes de sangue, mas relações entre amigos que viram família e onde impera a confiança. Estabelecida esta base, se terá acesso a diferentes níveis de receptividade e negócios.

A prosperidade, a amizade e a confiança são valores basilares com os chineses. É óbvio que estamos lá buscando preços, condições favoráveis e entregas pontuais, e estas condições serão alcançadas com disciplina e trabalho. Quanto mais pudermos olhar o mundo com olhos chineses, e não na nossa ótica de curtíssimo prazo, mais fácil será.

Certa vez perguntei a Johnny Wu, empresário cuja família fugira do comunismo em 1949, e que havia voltado para Xangai, porque ele havia voltado. Argumentei que os comunistas mataram milhões de pessoas e que estavam lá há mais de 50 anos. Johnny respondeu: “50 anos, e daí? Nós temos 5.000 anos de história. Isso é nada. E daqui a pouco vai acabar. Sem pressa.” Sim, temos muito que aprender com eles.

Ricardo Sondermann

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s